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2007/03/15

ateliermob @ Arquitectura e Vida

Pragmatismo é uma das recentes aquisições conceptuais da arquitectura portuguesa. O elevado número de jovens arquitectos com aventuras profissionais pelo estrangeiro e o cada vez maior acesso e partilha de informação, tanto genérica como especifica da arquitectura e design, conseguem trazer novos olhares que vêm questionar a realidade como a conhecemos. É neste sentido que se organizam colectivos como os arqMOB - Andreia Salavessa, Raquel Capelo, Nuno Carvalho e Tiago Mota Saraiva- que procuram na sua actividade diáría a integração transversal de saberes adquiridos nas suas curtas mas extremamente ricas experiências profissionais.

Quem é a arqmob?
A arqmob é uma plataforma de desenvolvimento de projectos, nas áreas da Arquitectura, Design e Urbanismo, constituída por uma equipa multidisciplinar que tem, ao longo dos anos, vindo a desenvolver diversos trabalhos em parceria. A arqmob pretende ser um espaço de aperfeiçoamento de ideias e de soluções criativas num contexto pluridisciplinar.
Gostamos e queremos incentivar as ligações entre a arquitectura (prática disciplinar a que estamos mais ligados) e outros campos do saber, estabelecendo frequentemente parcerias, das quais o projecto para a exposição comemorativa do “30º Aniversário da Constituição da República Portuguesa” é um bom exemplo.

A vossa aproximação ao projecto é bastante pragmática. Esta postura tem lugar numa visão mais "poética" da arquitectura, como é feita em Portugal?
O contexto do país, por si só, exige soluções pragmáticas. Não queremos que a arquitectura seja vista como um bem de luxo, ou exclusiva de uma elite económica. Aquilo que temos para oferecer aos nossos clientes, é a resolução das questões específicas que nos são levantadas e não um rol de contas a pagar. Por outro lado, a questão sobre o que é a “arquitectura portuguesa” interessa-nos bastante. Aquilo que se entende chamar como “arquitectura portuguesa”, tem sido um dos bens que o nosso país tem repetidamente procurado exportar ao longo da última década. Essa noção, está alicerçado nas carreiras pessoais de excelentes arquitectos portugueses que, com poucos apoios dentro do país, construíram sólidas carreiras profissionais, tanto a nível nacional como internacional. Com o fenómeno já consolidado, a crítica, institucionalizou-o, esquecendo e ostracizando tudo o que circulava à margem. Em nosso entender, o papel histórico das novas gerações, é o de ciclicamente combater estas noções estereotipadas e que procuram arregimentar o acto criativo de projectar.

Tiveram agora um prémio internacional, em França. Que dificuldades encontram no apoio das nossas instituições às equipes jovens, que fazem o futuro da arquitectura portuguesa?
A maior dificuldade é tida no próprio meio. Um atelier jovem é encarado com desconfiança, veja-se o exemplo do que sucede com os concursos públicos. Actualmente quase todos os edifícios públicos que são submetidos a concurso (que já de si, são poucos), são-no sob a forma de concurso limitado ou prévia qualificação, sendo que a priori se elimina quem não tem os 10/15 anos de pratica profissional. Será essa uma forma de assegurar qualidade?
Veja-se o caso de Lisboa, na qual estamos sediados. São anunciados imensos projectos novos, arquitectos internacionais e nacionais famosos para os realizar e julgamos que há mais de quinze anos que não é lançado, um concurso público aberto para o projecto de um edifício. Ao contrário das anteriores gerações, em que Siza, Souto Moura ou Gonçalo Byrne foram conseguindo fazer os seus primeiros trabalhos a partir de premiações, a nossa geração é praticamente impedida de o fazer e de participar, no caso de Lisboa, na construção da sua cidade. Por outro lado, começa-se a constituir o formato dos “concursos de ideias que não vão dar em nada”. Esses concursos, sobrelotados, e com prémios cada vez mais baixos, são os “concursos para jovens”. Assim, aos ateliers de jovens arquitectos, só nos resta a opção de concorrermos no estrangeiro. Um projecto com cem mil metros quadrados, como o do Tribunal de Grande Instância de Paris, em Portugal, nunca seria submetido a um concurso público aberto.

Num panorama mais alargado, numa Europa comunitária com livre circulação de pessoas, bens e serviços, como enquadram a vossa produção e a produção de outros colegas, ou "cúmplices" da inovação na arquitectura nacional?
Com muita curiosidade. Portugal, ainda é um país com uma visão periférica. Ainda tendemos a importar tudo o que é mau, que nos é vendido como “desenvolvimento” e, apesar de tudo, a ficar indiferentes e desaproveitar as qualidades e recursos que possuímos. Fenómenos recentes, desde a Internet até às viagens “low cost”, permitem uma maior informação e conhecimento de outros meios e ajudam a reverter esta tendência.
Nesse sentido, através do nosso site, que tem o formato de um blog, temos vindo a tentar utilizá-lo como um veículo de informação de novas realidades, produzidas por arquitectos espalhados pelo mundo, a par do raio-x da nossa actividade enquanto atelier de arquitectura. Contudo o enquadramento e a apreciação crítica, sobre o que nós e os nossos “cúmplices” estamos a fazer, ficará sempre para outros. Seja para os críticos, quando nos institucionalizarem, seja para as novas gerações, quando nos criticarem.


Arquitectura e Vida, Fevereiro 2007 nº 79, pp. 74-79.

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